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Ronaldo
Entrevistado por: Iva Muniz em: 24-05-2007
   Dando sequencia na série de entrevistas exclusivas feitas pela jornalista Iva Muniz para a Fiel Bicolor Net, Ronaldo é o sabatinado desta semana. O goleiro bicolor carinhosamente chamado pela torcida de “Rei dos Pênaltis” é de fato a muralha que o clube dispõe na hora de uma decisão. Assim foi em 2005 e 2006 quando fechou o gol e assegurou dois títulos de Campeão Paraense para o Paysandu.

24/05 - Ele é tão a cara do Paysandu, que fica difícil imaginá-lo vestindo outra camisa que não seja a bicolor. Mas é bom dizer que essa identificação não veio à toa, afinal, são onze anos de Curuzu, nove títulos e participações primorosas em grandes jornadas do clube, como na Copa Libertadores, em 2003, e em Campeonatos Paraenses, como os de 2005 e 2006, quando se consagrou como um grande pegador de pênaltis, sendo o principal responsável pelo bicampeonato estadual do Papão nos referidos anos. Pois é, Willis Gomes Dias, o Ronaldo, é o nosso ilustre entrevistado da vez. Natural de Breves, na região do Marajó (PA), o atleta de 31 anos chegou ao Papão aos 20, em 1996, vindo do Sport Belém. Ele, que já passou por “poucas e boas” na era Arthur Tourinho, é dono de um carisma peculiar junto à torcida bicolor e a Fiel sabe bem valorizá-lo, tanto que, recentemente, foi o goleiro mais votado no Troféu Camisa 13 (premiação concedida pela RBA), mesmo não tendo sido um grande destaque no Parazão 2007. Todavia, ele bem que merece essas honrarias pelo conjunto da obra, né não? Nesse bate-papo, o goleiro desabafa, fala do ex-presidente Tourinho, do motivo de seu afastamento do plantel no ano passado, da atual situação do Paysandu, da imprensa, e revela que, em breve, seu nome oficial será mesmo Ronaldo Willis Gomes Dias. Confira!

FB - Quando você fez sua estréia como titular no gol do Papão?

Ronaldo - Foi em 1998, no Campeonato Brasileiro da 2ª Divisão, quando o goleiro titular Narciso recebeu o terceiro cartão amarelo. Foi contra o Joinville, em Santa Catarina, e atuei bem, tanto que a crônica local me escolheu como o melhor jogador daquela partida.

FB - Qual a sua avaliação do novo técnico Paulo Roberto?

Ronaldo - É um treinador muito exigente. Exige bastante o profissionalismo do atleta, a dedicação durante o treinamento, além de não abrir mão da hierarquia. Acho que com o comando que ele tem perante o grupo, tem tudo para ajudar o Paysandu a subir à Segunda Divisão.

FB - E essa diretoria comandada por Miguel Pinho e Ricardo Rezende?

Ronaldo - Estou confiante na nova diretoria. O Tourinho não tinha mais condições de ficar, nem psicológicas nem morais, por causa da torcida. A nova diretoria reconhece o meu valor e acredito que, dependendo do treinador, continuarei como titular do time na Série C.

FB - O Tourinho fazia mesmo restrições a você?

Ronaldo - O Tourinho sempre quis goleiro de fora para o Campeonato Brasileiro. Em 2003, mesmo eu me destacando, ele ainda contratou o Carlos Germano para a Libertadores, que acabou nem jogando. Uma vez, no vestiário, eu o ouvi falando para o Ademir Fonseca e para o treinador de goleiro que eu era “um excelente reserva para qualquer clube do Brasil”. Fiquei triste por ouvi isso do presidente do clube. Mas isso não diminuiu em nada o meu trabalho. Não guardo mágoas dele, apenas não entendia o porquê dele fazer isso. Não sei dizer se com outro goleiro paraense ele agiria da mesma forma.

FB - Afinal, por que o Tourinho te afastou do plantel em 2006?

Ronaldo - O Tourinho não admitiu, mas foi por questões políticas, sim. Foi porque eu apoiei a campanha do Róbson em Breves. Lembro que, quando o técnico Leandro Campos foi contratado e assumiria o time na partida contra o Gama, em Brasília, o Fernando Oliveira me relacionou para o jogo, só que o Tourinho mandou tirar o meu nome. Isso foi a única coisa que ele admitiu ter feito quando eu lhe perguntei. Sobre o meu afastamento do grupo, ele me disse que era para reduzir o plantel. Aí eu pensei: Quer dizer que só a minha ausência vai fazer a diferença no plantel? Quando ele me afastou, ninguém teve coragem de me dar a notícia. Sobrou para o roupeiro que me disse que eu teria que ir conversar com o presidente. Mas eu já sabia o que estava acontecendo. Fiquei proibido de treinar na Curuzu, só podia pegar o meu material. Nesse período fiquei me exercitando em academias, e não ia nem aos jogos do Paysandu.

FB - Como você avalia a queda do Papão?

Ronaldo - O ponto principal foi a falta de planejamento. O time não se estruturou quando atingiu o ápice, não soube se manter lá. Chegou um momento em que precisou de maior estrutura e não tinha, enquanto os outros clubes tinham. Tourinho também se tornou muito centralizador. Se tivesse dividido funções, haveria outras cabeças pensando junto com ele. Outro problema era que os jogadores também não tinham tempo para se entrosar. Jogavam mal uma partida e já saíam no outro jogo, e assim o time nunca se entrosava. Em 2005 vieram muitos jogadores e mexeram muito no plantel. O time não tinha uma identidade. Em 2006 o clube já vinha dessas dificuldades financeiras e de contratação, e isso tudo influenciou no desempenho dentro do campeonato brasileiro. Quando caiu para a Série C eu fiquei muito triste. Eu pensava que poderia ter ajudado o clube.

FB - E qual a tua avaliação daquele vexame dos 9x0 para o Paulista?

Ronaldo - Não posso dizer o que aconteceu de verdade com o time porque eu não estava no grupo. Mas achei que faltou empenho, profissionalismo e respeito maior ao Paysandu.

FB - E do vexame dos 5x0 para o Náutico?
Ronaldo - Naquela partida, depois que fomos para o vestiário com 4 a 0, conversamos e dissemos: Pô, outro vexame não, né? Aí já é falta de vergonha na cara. Naquele jogo, o Náutico veio com uma equipe muito rápida pra cima da gente e não soubemos segurar.

FB - Como o Papão pode dar a volta por cima?

Ronaldo - O que o Paysandu tem que fazer é um planejamento, ter jogadores que se identifiquem com a torcida e com a grandeza do Paysandu. O treinador tem que ter um comando forte, que saiba manter o plantel unido.

FB - A torcida abandonou mesmo o Paysandu durante o Campeonato Paraense como o Miguel Pinho falou?

Ronaldo - Acho que faltou uma presença maior da torcida, sim. Todo mundo viu a situação ruim do Paysandu. Talvez a torcida pudesse ter sido o principal ponto para sermos campeões. Houve muita desconfiança, principalmente porque perdemos para times pequenos. Na verdade, esses times já perderam o medo dos grandes, houve crescimento deles, e não é só aqui que isso está acontecendo, é assim em todo o Brasil.

FB - No último REXPA algumas pessoas disseram que você não estava ainda recuperado totalmente para assumir a titularidade. E aí?

Ronaldo - Joguei normal, não comprometi em nada. Se a gente tivesse ganhado o jogo os comentários seriam outros.

FB - Como está o clima dos jogadores na Curuzu?

Ronaldo - Tem jogadores chegando, fazendo teste. O treinamento está muito motivador, os jogadores estão querendo seu espaço.

FB – Como você acha que deve ser a estréia do Paysandu na Série C?

Ronaldo - Temos que entrar para arrasar. O apoio da torcida vai ser fundamental, mais importante do que qualquer outro incentivo que vier por fora. Com ela a gente se sente mais seguro. Acho que no Brasileiro ela vai contribuir, e a empolgação da torcida virá do resultado do primeiro jogo, se ganharmos convencendo. Acho que vai ser por aí o resgate de nossa torcida.

FB – Qual o segredo para pegar tantos pênaltis?

Ronaldo - Na hora você tem que se concentrar. No Paraense, eu olhava aquele Mangueirão lotado e pensava que não podia deixar aquilo me influenciar. Me afastava, ficava pensando, sozinho, me concentrando. Eu observo bastante como o jogador se movimenta. Cada um tem a sua característica. Fazia isso nos nossos treinamentos na Curuzu. Aí tive a idéia de ficar me movimentando na linha do gol para atrapalhar o batedor. Meu treinador observou que isso dava certo e orientou que eu continuasse com essa tática. Em 2005, contra o Remo, peguei três pênaltis no primeiro turno e um no segundo, que foi o do Barata. Em 2006, de novo contra o Remo, peguei o do Luiz Henrique, e contra o Ananindeua, peguei mais dois. O mais emocionante foi o do Barata, porque se eu pegasse terminaria e ganharíamos o título e eu consegui.

FB – Qual o jogo que considera inesquecível?

Ronaldo - Contra o Boca Juniors, em La Bombonera. O último time brasileiro a vencê-lo tinha sido o Santos há muito tempo atrás. A gente estava representando o Pará. Escutávamos aquele barulho da torcida deles e o bom é que a gente não entendia nada. Mas não foi uma torcida que nos ameaçou. A torcida do Paysandu estava lá, mas em menor número, e só na hora do gol é que deu para ouvir a vibração dela.

FB – E qual foi o pior jogo?

Ronaldo - Acredito que tenha sido aquele contra o Náutico. Pelo jogo em geral. Pensamos em atuar de uma maneira e jogamos totalmente diferente.

FB – A posição de goleiro é mesmo ingrata como dizem?

Ronaldo - Não é ingrata. É diferente. As críticas são mais pesadas. Não podemos falhar porque não tem ninguém depois da gente para consertar. Já estou acostumado com isso. Tem que ter controle emocional, equilíbrio, não se deixar abater.

FB – Qual foi a defesa mais difícil que praticou?

Ronaldo - Foi a cabeçada do Rico, na decisão do Paraense de 2006, contra o Ananindeua. Foi quase no final do jogo, a gente estava perdendo por 3 a 2, e se o Rico fizesse aquele gol, fatalmente iríamos perder o campeonato. Defendi a bola com as pontas dos dedos e acabou sendo uma defesa bonita.

FB – Tem ídolos no futebol?

Ronaldo - Sempre admirei o Taffarel, a frieza, a concentração dele. Estava sempre tranqüilo, orientava bem a zaga.

FB – Qual foi melhor treinador com quem você trabalhou?

Ronaldo - O Givanildo, não só pelas conquistas, mas pela pessoa que é. Ele se preocupa com o jogador não só dentro de campo, como fora também.

FB – Como é a tua relação com a torcida bicolor?

Ronaldo - É boa. Apesar de ouvir críticas e de já ter saído vaiado de campo, sinto que a torcida me respeita. Mas eu sei que não dá para agradar a todo mundo.

FB – E a tua relação com os goleiros da base do Papão?

Ronaldo - Minha relação com eles é muito boa. Eles sempre me perguntam sobre os jogos, e sempre passo pra eles a minha experiência. Todos os dois que estão lá, o Paulo e o Caio, são paraenses, por isso digo a eles que a prioridade é sempre os goleiros de fora, mas que eles não têm que desistir. É bom ser um exemplo positivo para eles.

FB – Qual sua avaliação da imprensa paraense?

Ronaldo - Acho que algumas pessoas são muitos radicais em seus comentários. Fazem críticas desrespeitosas, comentários maldosos que denigrem a nossa imagem. Lembro que uma vez, em 1999, eu falhei num jogo contra o Castanhal, e no jogo seguinte, que era um amistoso contra o Remo, uma repórter me fez a seguinte pergunta: “Depois do frango contra o Castanhal, como será a sua atuação hoje?”, e era uma entrevista ao vivo! Se fosse hoje, acho que bateria de frente com ela. Mas, temos que relevar essas coisas.

FB – O que vai fazer depois de parar de jogar futebol?

Ronaldo - Pretendo parar daqui a oito anos. Minha intenção é realizar cursos e, quem sabe, ser técnico ou treinador de goleiro. Como minha família trabalha com exportação de madeira em Breves, posso também me dedicar a isso. Se tiver que fazer uma faculdade, gostaria de fazer administração de empresas, que é algo que não tem nada a ver com futebol.

FB - Vai mesmo incluir “Ronaldo” no seu nome original?

Ronaldo – Sim. O processo já foi encaminhado ao Ministério Público para dar o parecer e depois voltará para a juíza sentenciar. Isso levará um período de mais ou menos dois meses para a conclusão.

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